Copa 2010

mai
30

Inimiga número um

Publicado às 12:35 16 comentários
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Reinaldo Marques

Reinaldo Marques

José Maria de Aquino
Direto de Johannesburgo

Faltam 42 dias para a grande final da Copa aqui na África do Sul e naturalmente ninguém sabe qual será a seleção campeã. Nem quem será escolhido melhor jogador. Assim como quem será o artilheiro. Seja qual for a seleção e o preferido entre todos, dificilmente escaparão das críticas.

Tirando o artilheiro, não haverá unanimidade. Muitos acharão o título injusto e a escolha errada.

Mas, desde já há unanimidade sobre a pior da Copa: a bola, chamada de horrível pelo goleiro Júlio César e elevada a algo sobrenatural pelo artilheiro Luís Fabiano. “Traiçoeira. Parece que tem alguém invisível guiando-a em outra direção. Não quer que a chutem. Se mexe, foge, é dengosa”.

Há algo mais estranho que uma bola desagradar goleiro e atacante? Fugir de seus chutes e cabeçadas tanto quanto desvia, sem aviso prévio, das mãos que a espera para defesa?

Alguma coisa mais difícil de imaginar que a bola, sempre chamada de querida, tratada com carinho, amiga do artilheiro, parceira do craque, algoz do perna-de-pau, ser, por todos, desprezada? Tornar-se por unanimidade inimiga número um em um Mundial, sem que, coisa rara, essa unanimidade não seja burra, como Nelson Rodrigues afirmava ser?

Mesmo encontrando na que deveria ser sua companheira inseparável, uma inimiga declarada, Luís Fabiano tem planos para ajudar com seus gols o Brasil ser hexa. Já se imagina desfilando em carro aberto pelas avenidas das cidades brasileiras, para onde a Seleção naturalmente será levada, e, se possível, terminar como artilheiro.

Para isso, juntamente com Kaká, tem usado também os momentos de folga geral para trabalhar nos aparelhos, reforçando a musculatura. Os dois, todos sabem, se apresentaram contundidos e ainda não alcançaram o ponto ideal, só esperado pelos médicos e preparadores físicos para os jogos das oitavas.

Fabiano espera participar dos amistosos contra Zimbábue e Tanzânia, tomando o necessário cuidado para não entrar em divididas perigosas, “mas sem tirar o pé”, faz questão de dizer.

Atacante mais de força do que de toque de bola, sem ser, por isso, um grosso que deveria chamá-la de senhora, promete, como fazem todos os comprometidos com a filosofia de jogo proposta por Dunga, voltar para marcar, entrar duro, jogar feio, ser um guerreiro.

Mas não da forma como ele e outros jogadores aparecem na campanha publicitária de uma cervejaria.“Aquilo é ideia dos publicitários. Se tiver que jogar feio, vou jogar, assim como já fiz várias vezes. Mas também sei jogar bonito. Feio ou bonito, o importante é vencer”, repete, mostrando estar em dia com as lições ditadas por Dunga.

Como a bola é (no sentido negativo), Luís Fabiano é por unanimidade titular absoluto na Seleção Brasileira. Teria uma boa sombra em Adriano, pelo porte físico parecido, pela presença na área e pelo passado do atacante do Flamengo, no time brasileiro.

O que não acontece com Grafite, seu reserva, embora Dunga nunca tenha colocado assim. Grafite joga caindo pelos lados, é mais rápido, mas também mais leve, evitando o corpo-a-corpo.

Artilheiro da Seleção desde que ela passou a ser comandada por Dunga, Luís Fabiano espera ganhar mais intimidade com a bola fabricada pela concorrente da empresa que fornece material esportivo para o time brasileiro e, de repente, dizer lá na frente que ela não era tão ruim assim.

Afinal, sendo a Fifa tão exigente com os países que acolhem os Mundiais, cobrando deles aeroportos perfeitos, hotéis de primeira linha, avenidas largas, meio de transporte rápido e seguro, estacionamentos amplos, segurança absoluta para os visitantes, estádios modernos, gramados sem falhas, não poderia descuidar-se exatamente do objeto mais importante, ao lado dos jogadores, que é a bola.

Nem esta, fabricada por empresa que se imagina de grande porte, com técnicas modernas, sendo aprimorada constantemente, seria entregue às seleções participantes, já no país da Copa, a poucos dias do seu início, sem ter passado por testes rigorosos supervisionados pela entidade. Seria uma falha imperdoável.

O mínimo que se admite é que todas as seleções tenham recebido com antecedência, para poderem testá-la, a bola que será usada.