José Maria de Aquino
Direto da Cidade do Cabo
Brasil e Portugal se pegam pela última rodada dessa primeira fase. O Brasil, com seis pontos, tem a vaga garantida, mas isso não basta. Nem para Dunga, nem para os torcedores. Acho que de certa forma não é o bastante também para os jogadores, que se sentirão melhor chegando às oitavas com nove pontos no ativo.
Esqueçam a goleada que o time de Dunga lascou para cima de Portugal, naquele amistoso em Brasília. Aquilo foi brincadeira de mau gosto. Esqueçam, também, os 7 a 0 que a brava esquadra lusitana impôs aos orientais da Coreia do Norte, outro dia. Também foi brincadeira, aí, para os patrícios, de bom gosto.
O jogo é outro. Portugal pode se classificar mesmo perdendo, ainda que Costa do Marfim passe, como tem a obrigação, pela frágil Coreia do Norte. Só não pode perder por goleada, para não acabar de fora pelo saldo de gols. Mas é claro que não é esse o pensamento dos companheiros de Cristiano Ronaldo.
Nesse marasmo que virou acompanhar o Brasil, e sem opção para trabalhar, além da, para eles, salvadora coletiva imposta por Dunga com a concordância dos jogadores, resta aos repórteres, principalmente de rádio, entrevistar autoridades, “otoridades” que aparecem por aqui, além dos próprios companheiros. É um tal de você me entrevista e eu te entrevisto, que não tem fim.
Até para mim, velho conhecido de todos, sobrou. Desviei da pergunta sobre o resultado – que não sou adivinho. Mas não da que mais foi feita: quem Dunga escalaria no lugar de Kaká. Sabendo-se que ele, a não ser por uma surpresa do tamanho de sua saudável teimosia, nos surpreendesse, só fará a revelação 50 minutos antes do jogo, como exige a Fifa.
Entre as dezenas da mesma pergunta, decidi responder a do meu amiguinho Fernandinho, perdão, meu amigo Fernando Cassol, que ele, apesar de seus 9 anos não gosta de ser chamado por Fernandinho, nem que coloquem a mão no seu ombro, como para protegê-lo. Fernando, futuro medalhista em natação, fera na piscina do Tênis Clube de Campinas é, nesse sentido, homem feito.
Minha resposta, Fernando, é que Dunga deverá escalar Júlio Baptista no lugar de Kaká. Por uma questão de coerência, já que ele é a própria coerência personificada. O que muitos chamam de teimosia, mas não eu, que dou ao Dunga o direito de agir como bem entende, sabendo, naturalmente, que os aplausos ou as vaias serão exclusivamente seus.
Ficaria, penso assim, complicado para ele explicar, mesmo sem ter a necessidade, ao Júlio Batista, e por extensão ao grupo, porque escalar outro desde o início, se tem um reserva chamado por ele. Durante a partida, precisando mudar a forma de o time jogar, tudo bem. Mas não de cara. Poderia provocar desconfiança também nos demais.
Além de Kaká, suspenso, a Seleção Brasileira poderá não ter também Elano, contundido, contra Portugal. Nos treinos já nem tão secretos, Dunga tem colocado Daniel Alves no lugar de Elano. Daniel Alves foi chamado para a reserva de Maicon, na lateral direita, mas como também joga pelo meio, no Barcelona, é possível que seja o escolhido.
Minha preferência, porém, seria por Ramires, que tem mais mobilidade na frente, ataca e define, além de saber voltar para, quando necessário, ajudar no meio de campo. Ele pela direita e Robinho pela esquerda. Júlio Batista tem bom arranque como Kaká, mas não tem a mesma visão de jogo. Ramires compensaria essa “deficiência”.
Com Daniel Alves o time fica mais defensivo – seriam três volantes – e menos criativo. Daniel Alves poderá, se o escolhido, ajudar na marcação pelo lado direito, por onde trabalham, no time português, o ala Coentrão, Cristiano Ronaldo e, por vezes, Simão, quando escalado.
Mas será que a Seleção Brasileira deve optar por um time mais defensivo, estando classificado e sabendo que Portugal ainda não conquistou, matematicamente, seu lugar, e que por isso não deverá querer ser tão ofensivo?
Seja qual for a opção de Dunga, Fernando, espero por um jogo equilibrado, estudado por ambas as seleções, com o lado direito do Brasil vigiando de perto, mas não coladinho, Cristiano Ronaldo. E Luís Fabiano sentindo falta das assistências de Kaká.
O Brasil vai jogar na segurança e Portugal só se arriscará se acontecer de Costa do Marfim iniciar cedo uma goleada sobre a Coreia do Norte. Mas nada disso deverá ocorrer.

