José Maria de Aquino
Direto da Cidade do Cabo
Dizer que uma seleção cumpriu o dever de casa, ao contrário do que alguns pensam, não significa criticar, mas, ao contrário elogiar.
Fazer corretamente a lição de casa significa dizer que o time ganhou o jogo e, no caso do Brasil nesta tarde, ao vencer o Chile por 3 a 0, passou para a lição seguinte, naturalmente mais difícil.
Para cumprir sua obrigação, a Seleção Brasileira contou não apenas com suas qualidades incontestáveis, mas nem por isso sensacionais, com a colaboração do técnico do time chileno, o “hermano” Marcelo Bielsa.
Chamado pelos argentinos de “loco”, por suas concepções sobre o futebol, Bielsa prometeu e cumpriu a promessa de colocar seu time no ataque, mesmo sabendo – e tinha a obrigação de saber – que tal ousadia significaria um suicídio.
Escalou quatro jogadores com características ofensivas e, pecado capital, ordenou que se posicionassem além da linha que divide o campo, tentando marcar a saída de bola do time de Dunga, o que não conseguiu.
Bielsa errou – e talvez não tivesse adiantado nada armar o Chile na defesa, com duas linhas de quatro e apenas um jogador destacado na frente, como todas as seleções têm feito nessa Copa, porque os chilenos não sabem jogar dessa forma, e acabariam indo à frente com seu futebol de passes curtos, bom controle de bola, mas péssima finalização.
Além do mais, a Seleção Brasileira não tem culpa se o adversário foi mais atrevido do que devia. Ao contrário, deve agradecê-lo – como fez nas cinco últimas partidas, lembradas aqui na coluna anterior, todas vencidas, com um total de 20 gols.
Júlio César fez duas boas defesas e só, já que não foi exigido. Maicon continuou mostrando seu futebol ofensivo, mas esta tarde revezou suas descidas com Michel Bastos. Lúcio continua ansioso, indo mais ao ataque do que o necessário. E Juan, além de perfeito na defesa, cobrindo as descidas de Michel Bastos, fez o gol que abriu a goleada, com uma cabeçada precisa.
A ausência, por contusão, de Felipe Melo, abriu a chance para Dunga escalar Ramires, mais rápido, versátil e com visão de gol.
Ramires, que também poderia ter entrado na vaga de Elano, ainda sem condição de voltar, deu o passe açucarado para Robinho marcar seu primeiro gol em mundiais, mas levou o segundo cartão amarelo e deve estar perdendo a chance de se tornar titular.
Com o espaço deixado entre o meio de campo e o ataque chileno, Gilberto Silva pode se movimentar livremente e foi dele a primeira grande chance de gol do Brasil – logo aos oito minutos – com um chute forte e certeiro de fora da área.
Robinho, além do gol, participou da jogada para o de Luís Fabiano e movimentou-se bastante. Luís Fabiano fez o dele, terceiro no Mundial, e não precisava fazer mais nada.
Por fim, Kaká, outra vez movimentando-se com desenvoltura e deixando Fabiano na cara do gol, como o fez contra a Coreia do Norte.
Não foi difícil, como era esperado, para o Brasil fazer corretamente sua lição de casa – se não a fizesse seria um vexame. E agora terá uma naturalmente mais difícil pela frente, a Holanda, sexta-feira, em Port Elizabeth.
A Holanda é bem melhor que o Chile, não vai tentar marcar a saída de bola do Brasil – prefere ser cuidadosa e buscar contra-ataques – e promete um jogo equilibrado e bem jogado, como se viu poucos até agora.

