Copa 2010

jul
02

Um jogo se ganha com a cabeça

Publicado às 15:02 176 comentários
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Reuters

Júlio César e Felipe Melo falham no primeiro gol holandês. Crédito: Reuters

José Maria de Aquíno
Direto de Port Elizabeth

Um jogo se ganha não apenas com os pés, mas também com a cabeça. Não, não estou falando dos dois gols da Holanda na vitória sobre o Brasil, despachando-o nas quartas dessa Copa da África do Sul.

Nem quero criticar Felipe Melo por ter raspado a cabeça na bola no primeiro gol dos holandeses. Nem mesmo sei se Júlio César conseguiria socar a bola naquele bolo de jogadores. E acho que a Fifa deveria marcar o gol para quem chutou.

Mas, por favor, não me venham falar da desgraçada da bola. Não me venham dizer que ela desviou no caminho, graças ao vento que soprava no Estádio Nélson Mandela, em Port Elizabeth, como Dunga havia reclamado.

Felipe Melo merece crítica pela violência contra Robben, pisando a coxa do atacante holandês e merecendo por isso o cartão vermelho. Da mesma forma que merece elogios pelo maravilhoso lançamento para Robinho no gol brasileiro.

Mas não foi por Felipe Melo ter feito o que muitos esperavam - um site inglês estava pagando 17 por um que ele acabaria expulso até o final da Copa - que o Brasil perdeu para a Holanda. Aliás, já perdia no marcador e estava perdido em campo.

O Brasil está voltando mais cedo do que todos esperavam porque não teve, no jogo, cabeça equilibrada como teve a Holanda, que não se desesperou quando levou o gol de Robinho, ainda aos 9 do primeiro tempo e, sentindo que o time de Dunga partiria para decidir o jogo, usando os contra-atraques, não saiu afoita à procura do empate.

Mostrou confiança no seu futebol e manteve sua postura em campo, sabendo, ou pelo menos acreditando que poderia virar o jogo - desde que não sofresse mais um ou mais dois gols. Existe a mania de analisar um jogo apenas do ponto de vista do Brasil, que ganha ou perde, sem se olhar para o que o adversário fez ou deixou de fazer. Mania que é um erro muito grande.

O Brasil ganhou o primeiro tempo porque soube explorar o caminho pela direita, com as descidas do Maicon - o primeiro tempo terminou com um chute dele da entrada da área, que o goleiro holandês tocou para escanteio.

Porque Robinho, sentindo Kaká bem marcado, chamou o jogo para ele, insistindo nas jogadas individuais e não tentando definir mesmo não estando em boas condições. Numa das suas boas assistências, deixou Kaká em condições de colocar a bola no canto esquerdo pelo alto, obrigando Sekelenburg à excelente defesa com as pontas dos dedos.

A Holanda não perdeu o jogo, já no primeiro tempo, porque teve cabeça fria para não ir à frente de forma desesperada, com risco de levar mais um gol do Brasil.

E ganhou no segundo porque voltou jogando dentro de suas características, tocando a bola, sem se desesperar, explorando o lado esquerdo da defesa brasileira, onde Michel Bastos, nervoso, cometia faltas - acabou levando amarelo.

Foi da cobrança de uma das suas faltas que nasceu o primeiro gol holandês e de uma bobeada de Juan, jogando a bola para escanteio, quando tinha toda a lateral à sua disposição, que aconteceu o segundo. O que aconteceu dali para frente foi desespero, que normalmente, como aconteceu esta tarde, dá nada adianta.

Nada contra Dunga. O Brasil não perdeu porque ele fechou o time e os treinos. Nem porque enfrentou parte da imprensa. Ou, como me disse um amigo de uma emissora poderosa, não soube ficar do lado bom da imprensa.

Perdeu porque a geração não é boa. E para mostrar que mais importante do que abrir a concentração ou fechá-la a sete chaves, é ter um grande time. A história está aí para provar. E o filho de Garrincha na Suécia, também.

Finda a chamada Era Dunga, resta pensar em 2014. Em arranjar uma nova geração, sabendo que não é bom não ter o compromisso de disputar Eliminatórias. Sem ela não se enfrenta adversários fortes - amistosos não dizem nada - e não se tem como analisar, de fato, novos jogadores.